CONCEYÇÃO RODRIGUEZ

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Fernando A. F. Bini / REENTRÂNCIAS

 

Resumo

 

As obras recentes de Connceyção Rodriguez põem em confronto as reflexões sobre o corpo como linguagem, o seu processo de simultâneidade na produção da obra e a sua respectiva tatilidade.

O quadro enquanto metáfora do corpo requer o alinhamento vertical, metáfora da posição vertical do espectador e do dinamismo gestual da artista. O espaço assim é a extensão do campo visual do próprio espectador e a sua escala humana cria uma relação “íntima” com ele, envolvendo-o. Não o monumental ou o grandioso mas a relação pessoal com o quadro, no qual o “eu” da artista se dissolve para possibilitar as mais diversas leituras.

O seu processo pictórico de veladuras exige o desvelamento, o espectador não se satisfaz com os véus de massa escura e espessa e procura os índices, táteis e visuais, que o possibilitam penetrar na obra, ver as entranhas do corpo que, tornadas transparências, se exteriorizam.

Sob uma estrutura gráfica, há um trabalho tátil de matéria, traços e vestígios contaminados pela vivência da artista, que ela conclui com gesto sensível do riscado, do gravado, trazendo a escritura das primeiras camadas para superfície, exteriorizando o interior, tornando o véu transparente e deixando o espectador penetrar na obra.

 

Fernando A. F. Bini

Professor de Estética e História da Arte. Crítico de Arte

Junho de 2001

Connceyção Rodriguez / REENTRÂNCIAS

 

 

As obras recentes de Connceyção Rodriguez são admiravelmente construídos á partir de uma reflexão sobre o corpo como linguagem, nela, a verticalidade dos quadros representa o paralelo entre a pintura, o corpo da artista e o corpo do espectador sempre numa busca simultânea de referências.

Para Deleuze, “a linguagem forma um corpo glorioso” representado pelo dinamismo da vertical, em oposição à passividade da horizontal. No ver da artista, como o gesto é dinâmico, ele pede um espaço vertical.

Talvez mais do que isso, pois após Merlau-Ponty o quadro pode ser visto como um organismo, para ele “este é o enigma: meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível. (...) Ele se vê vidente, toca-se tateante, é visível e sensível por si mesmo.” (...) “... a pintura jamais celebra outro enigma a não ser o da visibilidade.” (O Olho e o Espírito)

O alinhamento vertical e a escala humana dos quadros não buscam o monumental ou o grandioso mas querem criar uma relação “íntima” com o espectador, pela própria posição vertical do espectador que olha o quadro, como sua extensão visual ou procurando envolve-lo na tela.

Nas pinturas de Conceição o corpo representado é uma armadilha, é o próprio corpo da artista desfigurado, que se esconde através do véu da pintura – é o eu dissolvido (Deleuze) que se abre para as diversas interpretações.

Fernando Veloso

Desde algum tempo venho acompanhando o trabalho de Conceição Rodrigues sem tê-Ia conhecido

pessoalmente.

Só recentemente nos encontramos em seu atelier, ocasião em que demonstrou seu desejo de ter sua próxima

exposição por mim apresentada. Aceitei de imediato o encargo, pois o meu diálogo com sua pintura antecedera a qualquer relação com a autora.

A série de pinturas que constitui esta mostra, realizada sobre grandes telas libertas das montagens convencionais,

soltas como panos fixados numa parede, denota, logo de início, o desejo de romper com as regras da "burocracia" da

produção artística.

Apesar de ter passado por um aprendizado acadêmico, Conceição Rodrigues se apresenta ao público, a caminho de

sua maturidade artística, mostrando o firme propósito de eliminar qualquer interferência, deliberada ou não, que possa prejudicar a intenção primeira d~ que sua obra seja um canto a sua liberação como ser constantemente aprisionado pelas malhas de um mundo de regras.'

Portanto, o objeto em sua aparência mais banal está afastado da ótica da pintora. Prefere ir em busca de outras

formas de realidade que a própria pintura oferece ao artista. A partir do momento em que deixa de ser uma janela simplória voltada para o mundo exterior, passa a ser um processo de transformação, fruto de uma grande criativa interior que se decodifica a partir de gestos e impulsos aplicados sobre a superfície da tela.

O resultado que é esperado, porém não programado, é fruto da ação de suas mãos e dos instrumentos de pintura

que fazem fluir manchas, sinuosidades misteriosas ou planos propositalmente singelos. Elas convivem com superfícies cheias de um grafismo rico de expressão, num diálogo de formas e texturas que, em última análise, revelam a intensidade emocional e a paixão incontida da artista.

Encontro na coleção de obras ora apresentada uma linha reveladora da intenção estabelecida pela artista ao propor

o conjunto de pinturas que aí está. Ela pretende manifestar, num grito forte, a negação de uma suposta fragilidade feminina deixando fluir, por vezes, até com alguma violência, toda uma incontrolável necessidade de vencer suas limitações. Mostra com clareza sua potencialidade, sua sensibilidade, seu inconformismo e todos os mistérios de seu interior, no ato infinitamente belo da criação. Esta magia concretiza a afirmação de liberdade existencial, só possível. talvez, neste momenfo de impenetrável intimidade.

Fernando Velloso

Outono, 1996

Artista plástico e membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte